terça-feira, 23 de dezembro de 2008

lógica elementar: 8 - 80 - 8

A gente sempre começa com um silogismo aristotélico:

Qualquer sujeito é tolo.
Eu sou sujeito.
Logo, eu sou um sujeito tolo.

O que torna válido um silogismo é que a conclusão deve obedecer as premissas, sob pena de ser um silogismo falso, como esse que segue abaixo:

O amor submete o homem.
Já a paixão o liberta.
Todo homem submetido
é um homem verdadeiramente idiota.

O desacordo da conclusão com as premissas, nesse caso, é que invalida o silogismo.

Ainda que as premissas sejam verdadeiras, tais como a submissão e a libertação provocadas pelo amor e pela paixão, delas não se segue necessariamente que todo homem submetido é verdadeiramente idiota.

E mais, há um acerto intrínseco na afirmação da idiotice do homem e na submissão do amor, mas como um não leva ao outro, então não vale o silogismo.

...

Em certas ocasiões a vida dá tapa na cara. Gostariamos mesmo de viver em meio a silogismos vários, com premissas facilmente manipuláveis e conclusões das mais saudáveis.

Endossaríamos mesmo assim os discursos exaltando as imprevisibilidades da vida, mas apenas naquilo que nos surpreende positivamente. Para o que nos provoca o mal, bastaria uma simples manipulação das causas para alteração da conclusão.

...

Pensava nisso tudo numa triste noite.

Um caminhão havia me atropelado e o motorista sequer parou para me prestar socorro. Sai das ferragens retorcidas assemelhadas a um polvo de mil braços a me prender no fundo do mar, até o momento em que daria a última, fatal e profunda inspiração.

Achando que era ar, respirei água e me propiciei a morte. Conclusão não válida.

A minha premissa era sair vivo das ferragens. Vivo. Cambaleante ferido sangrando mas corpo vivo.

Em uma só noite a gente varia. Mas que coisa terrível !

Um demônio apertou minha nuca como se quisesse esmagá-la entre seus dedos. Deitou sobre mim seu cobertor malévolo. Um corpo preso e pesado sustentando uma cabeça de mil quilos a vagar pela cidade maldita. Pensamentos obscuros me traziam o horror da existência e a obsessão da morte se mostrava verdadeira.

Já não disseram que filosofar nada mais é do que se preparar para morrer ?

...

Como já disse, em uma só noite a gente varia.

Leveza com sorrisos ! Um brinde a todos vocês, meus queridos amigos !

Por vocês eu bebo nessa noite e sou capaz de contar anedotas e histórias que fariam todos vocês rirem. Deixem-me falar e deixem-me sorrir sem fim.

Por vocês é que - naquela adorável noite - senti a leveza dos mais delicados e suaves passos de uma bailarina por quem me apaixonei na infância.

E aquela bela garota que exaltava Kant exaltava muito mais do que Kant.

Estariam meus olhos famintos denunciando minha etérea felicidade de éter ?

Banharam-me com calor humano sem o saber. Que importa ?

...

Numa só noite a gente varia.

A noite tem uma sacola de litros infinitos e dentro desses litros cabe de tudo. Enquanto alguém sorri tem um outro que chora.

Quem é aqui é capaz de sentir a dor do outro ?

Gélido como nada semelhante. Um corredor de hospital é só um corredor que leva a outros lugares. Mas nele se escondem artifícios e paredes impregnadas de morte.

Não importa quem se salvou ou quem se deixou levar pela elegante e suave condução da morte em seu baile. No baile da dona morte, os únicos convidados são ela e o dono da vida. Cada medo é uma valsa.

Um corredor é apenas um lugar que leva para outros lugares, mas quando as paredes, as esquinas, o chão e o teto estão todos impregnados de morte consumada ou evitada, a gente sabe bem que está em domínio alheio. Comportemo-nos, pois, como educados hóspedes que sabem se portar em cada um dos diferentes lugares.

Ali, naquele corredor, ela - a morte - é soberana. Todos eles se vestem impecavelmente de branco apenas para se esquecerem disso.

...

Submetidos a contingências várias vamos nos fantasiando por aí: do mais dócil cavalheiro que tem boas histórias a contar, munido de seu belo sorriso nos lábios, até o pesado rapaz que enxerga a morte no mais doce morango enfileirado.

Quem é que está preparado para isso ?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Aos 16, ela desejava que todos os bancos, todas as lojas, todas as empresas, todas as universidades, todas as igrejas e todas as famílias explodissem espalhando seus fragmentos pelo campo de batalha.

Aos 18, ela resolveu se organizar em coletivos, experimentar a união dos trabalhadores e dos estudantes. Ela queria se auto-gestionar, como sempre ouviu e repetiu. Enfastiou-se de colar lambe-lambes pelos postes e paredes da cidade.

Aos 24 ela saiu da universidade e já trabalhava. Ainda nutria ódio por quase tudo mas já era tolerante o suficiente para entender que a derrocada de um exército não começava com a morte do general.

Aos 30 nasceu seu filho e, com ele, se viu obrigada a deixar certos egoísmos de lado e pensar em um futuro minimamente digno e humano para si, para seu filho e para sua família. Mas a sua moral, pensava ela, estaria sob eterna guarida.

Aos 36 já estava completamente lambuzada pelo óleo que permite que as engrenagens das máquinas - todas elas - possam funcionar com o menor desgaste possível.

Aos 41 se surpreendeu quando abriu os jornais e leu que grande parte das empresas que tanto odiara aos 16, como Honda, General Motors e Ford, estavam na iminência de uma quebra definitiva.

Ainda sob os 41, chocou-se com gravidade ante a constatação de que não pensava mais nos grandes chefes das grandes empresas. Mas pensava em cada uma das famílias da grande massa de desempregados e seus filhos, vítimas da falência geral.

Aos 50, montou sua primeira árvore de Natal. Com a ajuda de seu filho.

Aos 57 se horrorizou quando após reencontro com antiga colega de universidade, teve de assumir para si mesma que o úlimo livro lido tinha sido o "Pensar é transgredir", de Lya Luft.

Muitos anos atrás era Voltaire que a encantava.

Aos 64, adoeceu.

Aos 67 morreu de câncer. E homenagens fúnebres ao melhor estilo cristão lhe foram prestadas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Meu primeiro encontro com Deus


"Visceral como a raiva, nada mais é, dado que a raiva drena a seiva da vida e da morte. Quando germinada de uma mentira, quando não furiosamente extirpada, transforma-se em monstro incontrolável em incessante procriação diária." W.M.R.

Naqueles tempos, havia uma espécie de erva daninha que já me era familiar desde a mais tenra infância.
Na praça defronte a minha casa pude a conhecer com suficiente profundidade, sendo que jamais havia me passado pela cabeça, até então, que uma simples e pequena planta, de caule quebradiço e raízes facilmente arrancáveis, pudesse carregar nome tão maldito como aquele.
Elas - as daninhas ervas - e isso era fato comprovado, multiplicavam-se flagrante e geometricamente por toda a pequena vastidão de terra que era a praça, nela se estendendo como lençol verde e homogêneo deitado deliberadamente sobre sua extensão.
Não era muito conveniente, também nesses tempos, os esforços diários para se extipar a praga que se chamou de daninha. Aprendi com meu pai que o pinheiro que acabávamos de plantar poderia não suceder na vida caso aquela profusão que era o lençol verde lograsse vitória na batalha cotidiana pelo espaço, pela água, pelos nutrientes e pela luz.
Assim é que a lembrança desses delicados tempos me impõe esforço hercúleo: a dificuldade para rememorá-los equivale à grande tarefa que consistia em preservar um espaço livre das ervas que prejudicavam a vida.
Mas no frescor da minha vida isso não era assim tão difícil. A tarefa de extipar as daninhadoras para preservar a vida do pinheiro me era extremamente gratificante. A gente - meu pai e eu - se esforçava unicamente para que pudessemos ver o florescimento natural da vida do pinheiro e nosso esforço era diariamente recompensado pela espera.
A gente arrancava mas também esperava. E quando esperavamos, tínhamos nossa recompensa.
Desde cedo constatei, por obra de meu pai, que bastaria esperar, após trabalhar, para que a alegria acontecesse.
Assim era com o pinheiro e assim deveria ser com as outras coisas. Não importava que para crescer, era necessário matar. Tal conta não se formulava nessa época: só com a morte das daninhas é que conseguiríamos a vida.
Por outro motivo, existiu um certo dia em que eu também tive de esperar. Dessa vez me foi exigido algo muito mais complicado e para o qual meu pai não havia me preparado diretamente. Eu já havia esperado outras vezes em tempos anteriores, e já havia insculpido em meu espírito virgem a convicção de que o esforço que precedia a espera era recompensador.
Talvez por isso, naquele dia de céu azul, um dia que era comum para o mundo inteiro, mas que se deitou sobre mim como sombra malévola de ilusão adquirida e perdida, a coisa não se sucedeu de forma igual.
Naquele dia ... dia que me estremece os lábios e que faz suar com largas gotas meus olhos riscados por ondas vermelhas ... eu também esperei pacientemente. Também me regozijava pela minha paciência aprendida, do pinheiro que merecia viver à erva que merecia morrer, eu esperava aquele momento em que sorriria pela evidência da vitória: a vida.
Não sei muito bem como ocorreu, diante da distância dos anos e da necessária couraça com a qual me vesti.
Sei apenas que a coisa toda aconteceu exatamente da mesma forma como eu fazia com as ervas daninhas: minhas mãos bastavam para arrancar convictamente suas raízes e seu caule. Em segundos, ela já não mais vivia. Em questão de segundos também meu pai foi tirado de alguém que mal lhe conheceu. Uma dor no braço esquerdo que se estendeu para um coração parado e que se abateu sobre uma família de emigrantes do norte.
Na nossa moira, os fios da vida haviam sido cortados sem hesitação.
Mas mesmo assim eu esperei, exatamente da mesma forma como havia aprendido. Acho que havia sim alguma boa intenção, alguma tentativa de remediar essa tragédia particular, a justificar as palavras daquela senhora que me consolava na minha pueril ignorância de quem não compreendia mas sentia o peso de uma morte que ainda então não lhe era lícito avaliar.
Há outro motivo para terem me pedido para esperar ? Corri para o lugar mais aberto da casa, o lugar no qual eu poderia ter a mais ampla visão do céu azul que mostrava apenas uma infinita parcela de sua vastidão. De lá eu poderia assistir ao retorno de meu pai, envolto em nuvens, rodeado de Deus e de santos, trazendo um pequeno pinheiro em suas mãos ele me daria um abraço, um abraço diferente de todos os outros que já havia recebido, dado que seria o primeiro abraço pós-morte dado nos braços de seu filho que sentia sua estranha falta, sua cotidiana lágrima.
A cada naco de nuvem que se aparentava a um pequeno borrão, até às mais complexas formas de navios e cabeças que passavam diante de meus olhos, eu esperava com paciência infinita. Passado um bom pedaço de tempo, confirmei que as nuvens - todas elas - haviam se esquecido de trazer meu pai de volta.
Nenhuma delas foi capaz de atender a promessa que havia sido feita para mim, por aquela senhora de coração bom mas de ignorância ímpar quanto ao efeito que uma simples espera provocaria em um ser habituado a esperar.
Deus não agiu e meu pai desapareceu para sempre. A promessa da ingênua senhora se descumpriu e isso ninguém é capaz de apagar.
Dias depois fui capaz de chorar pela promessa irreal, com minhas mãos segurando aquela pequena gravata envolta em discreta embalagem de cartolina azul. Presente que eu não esperei mais para dar, diante da proximidade da lata de lixo.
Naquele triste dia de nuvens bailando pelo céu azul, de promessa descumprida, de retorno irrealizado, de espera paciente, tive meu primeiro encontro com Deus.
Para nunca mais desejá-lo na vida.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona

A história do último filme de Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona, 2008, Estados Unidos/Espanha) é basicamente a seguinte: duas amigas norte-americanas vão passar férias em Barcelona, uma delas, Vicky, estudante da cultura catalã e prestes a se casar, e a outra, Cristina, solteira, com um curta-metragem irrelevante em sua carreira de cineasta e atriz.
Embora amigas e compartilhando opiniões comuns, ambas discordam quando o assunto em pauta é o amor: para Vicky nada melhor do que a segurança de um casamento com um bom homem, responsável e educado, tal como seu noivo. Já para Cristina, nada de certezas sobre suas vontades positivas, a não ser sua certeza negativa de saber o que não almeja para sua própria vida.
Chegando em Barcelona, onde se hospedam na casa de conhecidos, se inicia a peregrinação pelos pontos turísticos e históricos da bela cidade, inclusive com visitas a exposições de arte, até que em uma certa noite, ao jantarem em um restaurante, são abordadas por um homem desconhecido, bastante galanteador, que as convida clara e abertamente para uma viagem a Oviedo, onde poderão se conhecer melhor, beber vinho e fazer sexo, em suma, uma viagem para enjoy the life.
Com alguma relutância de Vicky, as duas partem para Oviedo em companhia desse então desconhecido, chamado Juan Antonio, pintor e artista plástico, filho de um poeta que não divulga suas poesias e recém-separado de sua ex-esposa, Maria Elena, também pintora.
O que se segue é que Juan Antonio sucessivamente conquista Cristina, depois Vicky e após as conquistas, retoma a relação com sua ex-esposa Maria Elena. Retoma a tal ponto que esta, após tentativa de suicídio, passa a viver sob o mesmo teto que o ex-marido e sua já companheira Cristina, surgindo então, após período de adaptação e estranhamento recíproco, um trio amoroso forjado em descobertas amorosas e sexuais, que termina com o retorno de Cristina e Vicky aos Estados Unidos.
Com as escusas da sinopse com gosto amargo de Folha de São Paulo, o novo filme de Woody Allen é sim interessante. Em geral, aborda os assuntos cotidianos em relação aos quais gastamos boa parte de nossas vidas tentando compreender: relacionamentos amorosos, diferenças ideológicas e culturais, a construção de si mesmo mediante projetos futuros e as renúncias que inevitavelmente devem ser feitas na vida.
Como já é praxe na carreira de Woody Allen, é o amor que desencadeia tanto os sonhos como as frustrações das personagens, dando vazão ao tipo categórico da neurótica, da romântica, da idealista, da pragmática e demais que habitualmente compõem o universo de Allen.
Até aí não há nada de extraordinário, pois é inegável que o universo humano, com suas dores e suas alegrias, é fonte inesgotável de reflexões e ironias, não residindo aqui o que julgo ser o ponto frágil do filme, uma vez que as artes em geral não se furtaram nunca de nos apresentar o humano, mesmo quando mostrado em tintas e palavras heróicas.
O que realmente é o ponto fraco em Vicky, Cristina, Barcelona, é que o cotidiano humano tenha sido mostrado a partir de arquétipos que não ultrapassaram o lugar comum, não se libertando disso nem mesmo a própria cidade - Barcelona - na qual se passa a história.
Assim é que duas das principais personagens, Vicky e Cristina, mulheres norte-americanas advindas do mundo protestante e pragmático que são os Estados Unidos, ainda que de sua ala mais liberal (Nova York), experimentam todos os dilemas amorosos, as tentações da carne e da alma - escolhas nas quais se projetam seus valores - na cidade, evidentemente latina, de Barcelona.
Ora, a chata expressão caliente tem muito do que se diz ser a alma do latino: emotivo, idealista, movido a paixões. Arrebatador, muitas vezes. Para isso então, imponha-se Barcelona!
Woody Allen se utiliza disso para nos introduzir o mais perfeito chavão do personagem latino: Juan Antonio Gonzales, sujeito com cara de cavalo (como me disseram), mas artista (entenda a ironia...), sedutor ao extremo, cara de pau, filho de poeta excêntrico, que leva uma vida boêmia e aparentemente sem preocupações materiais, coisas que apenas europeu nato sabe o que é.
Falamos aqui do mais típico e sedutor galã latino, que vê nas pobres pragmáticas norte-americanas, duas presas fáceis para seu belo discurso.
Some-se a isso outros exemplos de lugar comum: a oposição artista X executivo, aquele dotado de sensibilidade e este de monstruosidade. Aquele como paradigma de um espírito livre e este como o próprio dinossauro do conservadorismo.
Ou então, o artifício do chamado amor livre entre Juan Antonio, Cristina e Maria Elena, com direito inclusive a discurso padrão de Cristina, já então descolada e modernosa. Evidentemente não se trata de afirmar que o amor livre não possa de fato libertar de certos entraves, mas quando o mesmo é colocado em contraste com o amor monogâmico apresentado praticamente como uma relação entre idiotas (Vicky e seu noivo), assume um tom maniqueísta que remete - inevitavelmente - aos romances panfletários de Roberto Freire.
Assim como nem toda relação monogâmica é uma relação entre idiotas, embora muitas o sejam, nem toda relação amorosa livre é uma relação de fato libertadora. Perde muito em profundidade e seriedade a história, ao fazer tão previsível contraposição de mundos: artista-descolado-trepo com todo mundo X casal chato e burro que quer uma casa high tech e um casamento romântico na Espanha.
É natural que um filme limite a abordagem psicológica das personagens. Não há muito tempo para tais nuances. Mas os maniqueismos presentes no filme de Woody Allen quase o contaminam por completo, não chegando a tanto diante das pequenas e constantes reviravoltas no desenrolar da história, assim como na constatação final vivida por Cristina: não se preenche a existência do eu eternamente incompleto e insatisfeito no outro.
De toda forma, ao expor os dilemas humanos tais como a exigência da afirmação de valores mediante as escolhas cotidianas, o conflito entre diferentes moralidades e a busca pela construção de si mesmo (sobretudo Cristina), o filme é um que vale a pena ser assistido.
Lamento apenas é que as ambiguidades tão tipicamente humanas - não sendo monopólio de artistas ou executivos - tenham sido deixadas de lado em nome dos lugares comuns que facilitam - mas emburrecem - a história.




sexta-feira, 14 de novembro de 2008

leão cansado

Sabe o que é, o que sente e como se comporta um leão cansado ?
O amargor do fel apodrecido que preenche sua boca repleta de dentes afiados por tantas presas devoradas ao longo dos anos, moldaram - definitivamente - seu caráter.
As carcaças das presas - curiosa e simultaneamente vítimas e algozes - deixaram marcas por todo o seu corpo e, de seu estômago, de seu intestino, de todo e qualquer órgão que lhe compõe, é possível identificar cada rastro, cada marca, que deixaram impressos ao deslizar suavemente a partir do colchão áspero e úmido da grande língua.
Um leão cansado é assim: já não mais ataca, já não mais parte em busca da caça. Talvez por excesso de orgulho, talvez simplesmente por já ter desistido de antemão. Não importa. Apenas e tão somente aguarda que a presa - seja ela qual for - se aproxime de seu raio de ação.
Não subestime a expressão constante de sono e preguiça, tampouco o corpo estendido sobre a relva ou sobre o asfalto: é no descanso que se elaboram os melhores planos, as melhores caças.
Note que inúmeras, centenas e milhares de infinitas pequenas moscas rodeiam incessantemente a cabeça de um leão cansado. Pretendem elas, e disso não há a menor dúvida, infernizar a vida mansa, calma e pacífica do rei selvagem. Mas o que faz ele ? Apenas chacoalha sua grande cabeça, sacoleja seu rabo com ponta peluda, afasta temporariamente as moscas ao seu redor, para, assim, atingir momentânea paz.
Quando está em bando, com seus iguais, o leão cansado já não os vê como rivais, já não disputa com ferocidade a demarcação de espaços, já não se importa mais com disputas sanguinárias por fêmeas e provisões, seja lá quais forem.
Ao contrário, um estranho e novo clima de confraternização se instala. Todos eles não precisam sequer rugir, sequer empreender quaisquer esforços para atingirem uma compreensão mútua. Entreolham-se, simplesmente e, como em um passe de mágica, tudo já está entendido e nada mais é necessário.
Enganam-se de forma cabal e concreta aqueles que pensam que pelo fato de estar exausto, o leão cansado se tornou inofensivo. Uma vez rei e uma vez feroz, a realeza e a ferocidade reacendem em questão de segundos. Não mais do que um estímulo é necessário para isso: provoque-os e será capaz de experimentar a selvageria incontrolável daqueles que têm dentro de si o mais puro sumo da natureza em seu estado mais viril.
Experiências que se repetiram ao longo dos anos sugaram a juventude inocente dos leões. O espólio da juventude perdida é a parca sabedoria.
As lutas constantes e as derrotas cotidianas, permeadas de algumas vitórias, drenaram suas forças ao máximo. O despojo do cansaço é troféu: gasta força necessária apenas naquilo que interessa, naquilo que vale.
A perspicácia de um verdadeiro leão cansado reside exatamente naquilo que nos é mais óbvio: não force a natureza, as coisas têm seu tempo.
Crítica justa, porém, e motivo de tristeza entre os exauridos leões, é que aquele amargor de fel apodrecido não abandonará jamais vossas bocas.
(para os trintões que compartilham e criaram a idéia, naquela noite de lamentos e risadas)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Barack Hussein Obama

Então tá ! Animais políticos que somos, vivendo na cidade (e não na polis) , rendo-me ao fato mais importante da semana e, talvez, dos últimos tempos.
Passadas algumas horas da euforia provocada pela vitória de Barack Obama ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América, não resisto a um esboço de breve análise.
É fato de importância histórica inegável que um negro, pouco mais de quarenta anos depois das lutas de emancipação e pelos direitos civis nos EUA, tenha alcançado o mais alto posto político do país e, em escala global, dado o poder econômico, cultural, político e militar, o equivalente hodierno a um Cesar.
Mas também é fato que, paralelo a essa constatação, a sociedade norte-americana permanece inegavelmente racista: assim como no Brasil, a grande maioria da população carcerária é de negros, sendo que lá, ao contrário daqui, os negros são minoria na totalidade da população.
É sabido que muitos têm rotulado Barack Obama como um presidente "pós-racial", fruto de uma época em que a raça não teria peso importante, não sendo mais parâmetro para aferição de competências de um homem político.
No entanto, é igualmente sabido que a extrema maioria dos negros norte-americanos votaram em Obama. Não só negros, evidentemente, mas se um candidato mobilizou o povo negro dos EUA, foi Obama. Além do mais, quem assistiu a algumas imagens das horas seguintes à vitória democrata, pôde constatar os incontáveis rostos banhados em lágrimas. Todos eles de negros !
Ainda sobre o curioso e obscuro fenômeno chamado de pós-racial, sabe-se que durante toda a longa campanha do candidato Obama, evitou-se ao máximo o pronunciamento público de negros conhecidos, em apoio à sua candidatura, pois temia-se enormemente a vinculação oficial de Obama como o candidato dos negros. Visava-se, assim, ao voto dos brancos norte-americanos.
Ou você viu alguma manifestação pública de apoio - durante a campanha - por pessoas com largo poder de influência na mídia, tais como atores e atrizes negros de Hollywood, músicos (especialmente os rappers), esportistas e afins ?
Lembremos que durante a campanha para derrotar George W. Bush em sua reeleição, em 2004, diversos roqueiros - brancos - se uniram em shows que atravessaram os EUA (Rock for Vote), para pedirem que os jovens - brancos - saíssem de casa para votar em John Kerry, então candidato democrata. Será que o povinho do rock, à época, preocupou-se em não vincular Kerry a uma escolha dos brancos ? Evidente que não ! Um branco vencer a eleição para presidente é fato comezinho.
Chama a atenção também o caráter messiânico com que se temperou a reação pública - não só norte-americana, mas global - em razão da vitória de Obama. Yes, we can ! se repetiu infinitamente em quase todos os países do mundo, a ponto de minha mãe repetir o bordão enquanto acariciava a cebola com sua faca.
Também nesse ponto não há exatamente uma novidade. Quem se recorda da vitória de Lula, em sua primeira eleição, experimentou - com as devidas mudanças - sensação semelhante. Há uma descarga natural de sonhos, expectativas e projeções direcionada ao símbolo do poder mundial: o presidente dos EUA. Quando esse se mostra, ainda, sob a pele de homem democrático (multilateral, como dizem os jornais hoje), equilibrado, ponderado e advindo de uma minoria, então o fenômeno é razoavelmente compreendido.
No entanto, não nos enganemos. O perfil sedutor e magnético esbanjado por Obama tem muito do mais simples contraponto que o mesmo representa em relação ao velho, ao desgastado e ao atualmente odiado George W. Bush. Oito anos de Bush - que conseguiu ser mais odiado no mundo inteiro do que o próprio Bin Laden - facilitaram a exploração desse perfil por Obama.
Política não se faz em discursos. Assim como em tudo, são os atos que definirão o perfil e o estilo de Obama. É em meio a uma provocação de algum país qualquer, a um atentado com bombas, na imposição de democracias a países que não a solicitaram, é ao ponderar questões cruciais que simbolizam o ódio mundial aos EUA, tais como o uso da tortura como método oficial de investigação pela CIA, as prisões em Abu Ghraib e em território cubano, o próprio bloqueio comercial de décadas a Cuba, a política bélica sem limites, o total desmantelamenteo do papel político da ONU provocado pelo conceito de guerra preventiva adotada por Washington, o desprezo pelos temas ambientais, entre tantos outros.
É nesse contexto e em tais assuntos que se afirmará o real perfil de Obama, sendo que até lá viveremos - ou viverão, se me for permitida alguma dose de lucidez - um verdadeiro conto de fadas, tendo como elementos essenciais o homem visto como um Messias e um povo branco expiado parcialmente de sua culpa racista.
Mas, no fim das contas, sempre vale um sábio lembrete: um presidente dos EUA é, sempre, um eterno filho da puta.
É condição sine qua non para o cargo.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

i want to believe

Budistas acreditam no desapego.
Comunistas acreditam na história - ente autônomo dotado de vontade própria.
Cristãos acreditam na salvação eterna. E nos pecados.
Racionais acreditam na razão.
Emotivos, por sua vez, na autenticidade e espontaneidade das emoções.
Empregados acreditam em bons salários.
Advogados e juízes acreditam na justiça. Ou ao menos se contentam com a juridicidade da mesma.
Empresários acreditam em si mesmos.
Políticos profissionais acreditam no bem público.
Filósofos acreditam na sabedoria. Ainda que sem o amor.
Músicos acreditam serem capazes de mudar o mundo.
Mas pintores, poetas e escultores, acreditam poder embelezá-lo.
Professores acreditam na educação.
Jornalistas acreditam ser possível alguma comunicação.
Médicos acreditam na saúde.
Coveiros acreditam na morte.
Economistas acreditam piamente em previsões.
Aikidokas acreditam em harmonia.
Assim também os vegetarianos.
Psicólogos e psicanalistas acreditam enxergar luz nas sombras.
Espiritualistas acreditam em transcendências.
Anarquistas acreditam numa - estranha - boa natureza humana.
Já os ecologistas, em uma natureza boa.
Niilistas acreditam na impossibilidade.
Escritores acreditam que algo deve ser dito.
Amantes acreditam na entrega.
E uma boa maioria acredita que tudo está pré-determinado pelos desígnios do além.
Inexoravelmente das crenças nos alimentamos. Um verdadeiro massacre.
Até que um vendaval - seja ela humano ou natural - lambe as crenças e as faz desaparecer subitamente.
Tornamo-nos então céticos.
Para passarmos a acreditar nas dúvidas.