A gente sempre começa com um silogismo aristotélico:
Qualquer sujeito é tolo.
Eu sou sujeito.
Logo, eu sou um sujeito tolo.
O que torna válido um silogismo é que a conclusão deve obedecer as premissas, sob pena de ser um silogismo falso, como esse que segue abaixo:
O amor submete o homem.
Já a paixão o liberta.
Todo homem submetido
é um homem verdadeiramente idiota.
O desacordo da conclusão com as premissas, nesse caso, é que invalida o silogismo.
Ainda que as premissas sejam verdadeiras, tais como a submissão e a libertação provocadas pelo amor e pela paixão, delas não se segue necessariamente que todo homem submetido é verdadeiramente idiota.
E mais, há um acerto intrínseco na afirmação da idiotice do homem e na submissão do amor, mas como um não leva ao outro, então não vale o silogismo.
...
Em certas ocasiões a vida dá tapa na cara. Gostariamos mesmo de viver em meio a silogismos vários, com premissas facilmente manipuláveis e conclusões das mais saudáveis.
Endossaríamos mesmo assim os discursos exaltando as imprevisibilidades da vida, mas apenas naquilo que nos surpreende positivamente. Para o que nos provoca o mal, bastaria uma simples manipulação das causas para alteração da conclusão.
...
Pensava nisso tudo numa triste noite.
Um caminhão havia me atropelado e o motorista sequer parou para me prestar socorro. Sai das ferragens retorcidas assemelhadas a um polvo de mil braços a me prender no fundo do mar, até o momento em que daria a última, fatal e profunda inspiração.
Achando que era ar, respirei água e me propiciei a morte. Conclusão não válida.
A minha premissa era sair vivo das ferragens. Vivo. Cambaleante ferido sangrando mas corpo vivo.
Em uma só noite a gente varia. Mas que coisa terrível !
Um demônio apertou minha nuca como se quisesse esmagá-la entre seus dedos. Deitou sobre mim seu cobertor malévolo. Um corpo preso e pesado sustentando uma cabeça de mil quilos a vagar pela cidade maldita. Pensamentos obscuros me traziam o horror da existência e a obsessão da morte se mostrava verdadeira.
Já não disseram que filosofar nada mais é do que se preparar para morrer ?
...
Como já disse, em uma só noite a gente varia.
Leveza com sorrisos ! Um brinde a todos vocês, meus queridos amigos !
Por vocês eu bebo nessa noite e sou capaz de contar anedotas e histórias que fariam todos vocês rirem. Deixem-me falar e deixem-me sorrir sem fim.
Por vocês é que - naquela adorável noite - senti a leveza dos mais delicados e suaves passos de uma bailarina por quem me apaixonei na infância.
E aquela bela garota que exaltava Kant exaltava muito mais do que Kant.
Estariam meus olhos famintos denunciando minha etérea felicidade de éter ?
Banharam-me com calor humano sem o saber. Que importa ?
...
Numa só noite a gente varia.
A noite tem uma sacola de litros infinitos e dentro desses litros cabe de tudo. Enquanto alguém sorri tem um outro que chora.
Quem é aqui é capaz de sentir a dor do outro ?
Gélido como nada semelhante. Um corredor de hospital é só um corredor que leva a outros lugares. Mas nele se escondem artifícios e paredes impregnadas de morte.
Não importa quem se salvou ou quem se deixou levar pela elegante e suave condução da morte em seu baile. No baile da dona morte, os únicos convidados são ela e o dono da vida. Cada medo é uma valsa.
Um corredor é apenas um lugar que leva para outros lugares, mas quando as paredes, as esquinas, o chão e o teto estão todos impregnados de morte consumada ou evitada, a gente sabe bem que está em domínio alheio. Comportemo-nos, pois, como educados hóspedes que sabem se portar em cada um dos diferentes lugares.
Ali, naquele corredor, ela - a morte - é soberana. Todos eles se vestem impecavelmente de branco apenas para se esquecerem disso.
...
Submetidos a contingências várias vamos nos fantasiando por aí: do mais dócil cavalheiro que tem boas histórias a contar, munido de seu belo sorriso nos lábios, até o pesado rapaz que enxerga a morte no mais doce morango enfileirado.
Quem é que está preparado para isso ?
Qualquer sujeito é tolo.
Eu sou sujeito.
Logo, eu sou um sujeito tolo.
O que torna válido um silogismo é que a conclusão deve obedecer as premissas, sob pena de ser um silogismo falso, como esse que segue abaixo:
O amor submete o homem.
Já a paixão o liberta.
Todo homem submetido
é um homem verdadeiramente idiota.
O desacordo da conclusão com as premissas, nesse caso, é que invalida o silogismo.
Ainda que as premissas sejam verdadeiras, tais como a submissão e a libertação provocadas pelo amor e pela paixão, delas não se segue necessariamente que todo homem submetido é verdadeiramente idiota.
E mais, há um acerto intrínseco na afirmação da idiotice do homem e na submissão do amor, mas como um não leva ao outro, então não vale o silogismo.
...
Em certas ocasiões a vida dá tapa na cara. Gostariamos mesmo de viver em meio a silogismos vários, com premissas facilmente manipuláveis e conclusões das mais saudáveis.
Endossaríamos mesmo assim os discursos exaltando as imprevisibilidades da vida, mas apenas naquilo que nos surpreende positivamente. Para o que nos provoca o mal, bastaria uma simples manipulação das causas para alteração da conclusão.
...
Pensava nisso tudo numa triste noite.
Um caminhão havia me atropelado e o motorista sequer parou para me prestar socorro. Sai das ferragens retorcidas assemelhadas a um polvo de mil braços a me prender no fundo do mar, até o momento em que daria a última, fatal e profunda inspiração.
Achando que era ar, respirei água e me propiciei a morte. Conclusão não válida.
A minha premissa era sair vivo das ferragens. Vivo. Cambaleante ferido sangrando mas corpo vivo.
Em uma só noite a gente varia. Mas que coisa terrível !
Um demônio apertou minha nuca como se quisesse esmagá-la entre seus dedos. Deitou sobre mim seu cobertor malévolo. Um corpo preso e pesado sustentando uma cabeça de mil quilos a vagar pela cidade maldita. Pensamentos obscuros me traziam o horror da existência e a obsessão da morte se mostrava verdadeira.
Já não disseram que filosofar nada mais é do que se preparar para morrer ?
...
Como já disse, em uma só noite a gente varia.
Leveza com sorrisos ! Um brinde a todos vocês, meus queridos amigos !
Por vocês eu bebo nessa noite e sou capaz de contar anedotas e histórias que fariam todos vocês rirem. Deixem-me falar e deixem-me sorrir sem fim.
Por vocês é que - naquela adorável noite - senti a leveza dos mais delicados e suaves passos de uma bailarina por quem me apaixonei na infância.
E aquela bela garota que exaltava Kant exaltava muito mais do que Kant.
Estariam meus olhos famintos denunciando minha etérea felicidade de éter ?
Banharam-me com calor humano sem o saber. Que importa ?
...
Numa só noite a gente varia.
A noite tem uma sacola de litros infinitos e dentro desses litros cabe de tudo. Enquanto alguém sorri tem um outro que chora.
Quem é aqui é capaz de sentir a dor do outro ?
Gélido como nada semelhante. Um corredor de hospital é só um corredor que leva a outros lugares. Mas nele se escondem artifícios e paredes impregnadas de morte.
Não importa quem se salvou ou quem se deixou levar pela elegante e suave condução da morte em seu baile. No baile da dona morte, os únicos convidados são ela e o dono da vida. Cada medo é uma valsa.
Um corredor é apenas um lugar que leva para outros lugares, mas quando as paredes, as esquinas, o chão e o teto estão todos impregnados de morte consumada ou evitada, a gente sabe bem que está em domínio alheio. Comportemo-nos, pois, como educados hóspedes que sabem se portar em cada um dos diferentes lugares.
Ali, naquele corredor, ela - a morte - é soberana. Todos eles se vestem impecavelmente de branco apenas para se esquecerem disso.
...
Submetidos a contingências várias vamos nos fantasiando por aí: do mais dócil cavalheiro que tem boas histórias a contar, munido de seu belo sorriso nos lábios, até o pesado rapaz que enxerga a morte no mais doce morango enfileirado.
Quem é que está preparado para isso ?
