quinta-feira, 4 de setembro de 2008

inferno

A, B e C, são elementos que fazem parte de sua vida, sendo objetos de pensamentos, preocupações, atos e conversas cotidianas. Para o único fim de compreensão, não importa aqui se tais elementos se referem a pessoas, grupos ou lugares.

Quando está no A, ou quando está entre os A, embora sinta-se à vontade, sente constantemente um leve desconforto e estranho sentimento de estar fora de lugar. Nesses momentos, sempre pensa que, caso estivesse em B, ou caso estivesse rodeado pelos B, certamente sentiria-se mais compreendido e realizado. "Aí sim eu estaria entre os meus", pensava satisfeito.

O fato de que mesmo quando se encontrava em ou entre os B, ainda assim não encontrava a satisfação esperada, era algo extremamente incômodo e sobre o qual relutava terminantemente em refletir com honestidade.

Nessas situações, o desejo de estar novamente em A, ou ainda, a intuição de que se não estivesse ali agora, mas se estivesse lá com os C no exato momento em que lhe invadia o desconcerto ante aos olhares perscrutradores dos B, dominavam-lhe com fúria suas emoções descontroladas.

Se a salvação, enfim, era estar em C, ou mesmo que o salvar-se fosse estar mergulhado nas relações com os C, era absolutamente inadmissível que sentisse - como de fato sentia - aquele vazio profundo que preencheria um abismo, no exato momento em que nada além ou aquém de e dos C estava diante de si.

Quando isso lhe ocorria, logo retornava também o desejo de estar em B, sem deixar de lhe ser claro, no entanto, de que mesmo quando os A estavam ao seu redor, também os C se faziam necessários mesmo encontrando-se ausentes.

Foi então na contradição do infindável ciclo de satisfação irrealizada, incompleta e incontrolável: serpente que devora infinitamente a si mesmo, que descobriu o inferno.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Não poderia ter sido antes.

Só foi depois que senti o corpo estafado mas já estabilizado na poltrona vermelha, que descansei meus braços doloridos na grande mesa maciça e desocupada, que empurrei meus pés confortavelmente contra a parede áspera, que senti o percurso gélido de uma cerveja se iniciar na língua e rapidamente avançar em direção à minha garganta e ao meu estômago, só a partir daí é que pude realmente ouvir toda a gama de instrumentos tocarem o jazz, e sendo que apenas nesse momento me certifiquei que não havia possibilidade de explicar aquilo que se deliciava nos meus ouvidos.

Reconhecia uma certa melodia, e dentro dessa melodia, reconhecia também um ritmo. Da melodia e do ritmo que eu julgara já conhecer, buscava um padrão, haveria uma repetição na música que ouvia, e essa repetição me certificaria da existência de uma certa ordem natural das coisas. Não importava como e tampouco quando, os devaneios dos músicos seriam livres, loucos e destemperados, eles fingiriam a todo tempo não saber para onde voltar, improvisariam em bases seguras, mas, certamente, voltariam à mesma melodia e ao mesmo ritmo, assim como sempre volta para o ninho aquela criatura que tanto se arrisca durante o dia, confirmando a lei natural .

O diabo é que eles não voltaram ! Tal como aquele padre maluco que se jogou por aí ao sabor dos ventos acariciando o balão - admirável esse padre, não ? - os músicos não voltaram ao que eu esperava, e meu sentimento natural de retorno ao ninho: quente, aconchegante e conhecido, teve de ser rapidamente substituido por uma instantânea compreensão dos fatos.
Quem ouviu aquele jazz, ouviu. Quem não o ouviu com atenção, praticamente o perdeu de vez. Não haveria nova sessão e mesmo que os músicos resolvessem tocar tudo de novo, rigorosamente igual, algo me dizia que eles seriam incapazes de tal feito.
Com furor havia concluido que o jazz é assim mesmo: imprevisível dentro de sua previsibilidade. A sequência das notas obedece apenas à livre manifestação da consciência de quem as toca, sem qualquer plano anterior que possa garantir o rumo que será seguido. Balizas existem, ao menos ? Talvez apenas aquelas que garantam a delícia dos ouvidos: ritmo e melodia...

Tendo abdicado do desejo de encontrar o retorno ao conhecido na música que ouvia, a constatação seguinte era eivada da mais pura obviedade: a vida - ó ente ingrato - também é jazz!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Circularidade: Aikido !

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Que se fodam meus joelhos doloridos e minha perna lesionada.
O que me importava unicamente era pisar com toda minha força na areia granulada, sentindo meus pés descalços afundarem naquela massa bege e compacta violentada pelo meu peso.

Que se fodam, também, minhas costas avermelhadas como sangue e o ardor provocado pelas roupas que a todo tempo as roçam. Nada mais era importante além do sol que me queimava deliberadamente o couro, desprovido de proteção, sem qualquer pudor.

Que se fodam meus pulmões. Colocá-los a todo limite e atingir o grau de quase inconsciência provocado pelo incessante arfar nada mais era do que um doce exercício solitário em meio a tantas pessoas.

Que se foda essa chama interna do corpo que sempre fraqueja. Corri com sorrisos solitários em direção à mais gélida água falsamente aquecida pelo sol de inverno. Gritei a plenos pulmões enquanto meu peito, minhas nádegas, meu abdômem e meu pescoço eram irremediavelmente envolvidos pelo cobertor fluido e sedutor que era a água.

Que se fodam todas as mágoas.
Todas as tristezas.
Todas as lágrimas que molham o deserto.
Ontem eu era corpo que sorria.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Definindo-se em "não ato"

(acredite ! superada a chatice dos primeiros parágrafos, talvez depois fique engraçadinho)
Quem conhece um pouco da filosofia de Sartre, ou mesmo suas obras literárias, certamente deve ter sentido - ainda que não compreendido - o peso do bloco fundamental para a compreensão dos principais temas sartrianos, que é a noção da responsabilidade do homem na construção de si mesmo.
Segundo Sartre, não existindo uma natureza humana que anteceda a existência do homem (expresso como "a existência precede a essência"), este nada é ao nascer, só vindo a ser alguma coisa, conforme aquilo que ele próprio vier a escolher para si mesmo. Nesse sentido, são seus atos que conferem a própria essência que o definirá.
Nessa linha, o homem não nasce bom, corajoso, malvado ou covarde. Mas faz-se assim a todo instante, conforme as escolhas que forem efetuadas, nas situações concretas efetivamente vividas, assumindo assim uma essência de homem que se faz bom, corajoso, malvado ou covarde.
Evidentemente, ao afirmar a inexistência de uma natureza humana anterior à existência do próprio homem, a filosofia de Sartre dispensa a figura e o papel de Deus como regente do mundo e dos homens.
Sendo o homem lançado em um mundo de contingências absolutas, apenas e tão somente a ele cabe o peso e a responsabilidade (no que lhe é efeito causal imediato, a angústia) de construir a si mesmo.
Em nossas vidas, no estado atual, somos capazes de identificar a relação causa e efeito entre o que somos hoje e as escolhas que fizemos no passado ? Não se trata de buscar relação de causa e efeito para eventos que são essencialmente contingentes (ter nascido no Brasil e não em outro lugar; ser proveniente dessa família e não daquela; ter nascido nessa classe social e não em outra), mas sim buscar enxergar que efetivamente aquilo que nos define hoje é consequência de nossas escolhas, e são estas escolhas mediadas pelos atos que praticamos, que definem nossa essência, ou nossa "natureza humana".
Porém, aqui vai um pensamento que está, não exatamente na contramão da filosofia sartriana, mas sim que expõe o mesmo ponto (o homem escolhe a si mesmo) sob uma outra perspectiva.
As escolhas sobre determinadas coisas que fizemos, e que depois as abandonamos, também podem, de alguma forma, terem o papel de definidoras de nossa essência, também como frutos de escolhas livres.
Exercitar esse outro lado da filosofia existencialista pode chegar a se tornar um exercício cômico, desde que feito com sinceridade. Lembra-se daquele projeto de aprender a surfar depois de velho ? Lembra-se das aulas de dança que você frequentou por três vezes e depois nunca mais teve coragem de voltar ? E sobre os montes e montes de páginas ou desenhos guardados dentro da gaveta, como sinal da desistência em ser escritor ou desenhista ?
Tal como revelar um sonho consistente a alguém, eis-me o que eu poderia ter sido e não fui, no que se poderá concluir também o que sou:
* músico (aulas e aulas de violão e guitarra para nada)
* praticante antigo de kung-fu (não nasci para ser louva-deus, águia, tigre ou bêbado)
* jornalista (ai se eu tivesse me matriculado na PUC...)
* escritor (ainda é tempo de queimar as folhas antes que alguém as encontre após minha morte)
* membro de torcida organizada (eu ansiava usar aquela blusa preta da Gaviões, aos meus 14 ou
15 anos de idade)
* homem bonito (tá.... a feiúra é pura contingência. Culpa de Deus)
* membro da fanfarra da escola (ao menos fiquei com o bico da corneta em casa, modo que o professor encontrou de me deixar longe dos ensaios)
* cristão (minha mãe bem que tentou....boníssima alma)
* fluente em latim
* membro do Partido Comunista do Brasil (cheguei a pegar a ficha de inscrição, mas a devo ter perdido em algum lugar, pois no mesmo dia comprei o Castlevania IV, do Super Nintendo)
* programador de computador (o que eu fazia nos intervalos das aulas eu não posso contar mas nem morto)
* amigo de padre (mas ele era da Teologia da Libertação, ora !)
* punk (hein ?)
* ser um Dhalsin da yoga (não tem jeito, aquilo de inspirar por uma narina e expirar pela outra, não é para quem só tem uma narina disponível)
* ladrãozinho de supermercado
* ladrãozinho de camisetas brancas no supermercado
* cozinheiro (bem que tentei. Agora acabaram os ingredientes)
* romântico (eu já li e compreendi Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe)
* putão (viver o corpo como receptor sensorial unicamente. Às vezes funcionou, viu ?)
* helênico (gosto de dizer que sou. Mas como, se a contingência me deixou para viver hoje e agora ?)
* viciado em haxixe (bendita hora em que arrancaram aquela segunda rodada da minha mão)
* historiador (caso eu não tivesse decidido ir à praia em vez de ficar estudando para a segunda fase da Fuvest do ano 1954)

Entenderam essa outra perspectiva da filosofia de Sartre ?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

o velho escritor

Alguns episódios irrompem as lembranças de forma tão visceral, que sequer pode-se dizer que são lembranças, mas episódios revividos com a áspera brutalidade do real.

Éramos crianças naquela época. Vivíamos em bando e vivíamos em busca. Despertávamos então para as regras próprias de um bando de meninos, que viviam sua dupla vida de liberdade e opressão. Dentro das casas, fracos e quase sempre oprimidos. Fora delas, ganhavam um mundo à parte, um mundo grande e vasto. Com nossos códigos de conduta maniqueístas, nossos moralismos herdados, nossa masculinidade que clamava por parecer exacerbada, com a hierarquia que precisava ser respeitada.

Ah ! E também com nossas pequenas espertezas ! Jogados para viver numa rua nem diferente nem igual, em um bairro nem diferente nem igual, de uma periferia a mais da monstruosa São Paulo.

Era com indisfarçável esperteza, mas deveras com disfarçável vergonha, que cotidianamente o bando abordava aquele sujeito já meio gordo, de cabelos de algodão nas laterais, de óculos quadrados e grandes, de roupas abarrotadas, mas clássicas. Boina, calça social e sapatos, ar de inteligente.

Subia a rua e a ladeira com passos calmos, parecia pensativo, parecia afundado em meditações, ou em versos, ou em contos. Vivia em um mundo que não era o nosso, marcado pela dureza e pela consistência de uma pedra.

Era curioso e diferente. Enquanto todos que ali moravam se mostram à memória de hoje, como quase autômatos, com ele não. Ele era diferente. Ele subia a rua também, mas não simplesmente a subia. Ele pensava talvez em uma crônica, em uma história, criava qualquer coisa a partir daquele bando que diariamente encontrava-se à solta no mundo imenso e explorável que era a simples rua.

Era diferente dos demais. Não tinha o aspecto cansado do operário em fim de jornada getulista. Tampouco tinha o vigor dos passos dos mais jovens que ansiavam então por uma prancha de surf, ainda que vivendo na cidade. Ele tinha um ar diferente.

Só tempos depois, é que fiquei sabendo que o velho era escritor. Pensei que talvez fosse esse o motivo de sua aparência singular, de seus passos que pisavam aquele asfalto gasto mas que pareciam pisar em uma outra dimensão, em letras, em frases, em palavras, em sinônimos, em antíteses, em metáforas, em um mundo que não era o nosso.

Os velhos mais brutos dessa época assustavam os meninos com feições e gritos assustadores. Já os jovens batiam nos meninos por imposição, por simples razões hierárquicas.

Já o velho, não. Esse subia a rua e, com frequência, distribuia balas aos meninos. Era rodeado por um bando de moleques dos mais diversos tipos, das mais diversas famílias, que apenas tinham em comum a parca idade, a inocência que queriam destruir e o extremo e brutal acaso de estarem crescendo juntos, naquela rua e não em outra qualquer.

Era autêntica algazarra de meninos. E ainda que não fôssemos nada, e ainda que muitos de nós fôssemos seguir - em trágica e inocente ignorância - o rumo de uma vida que nos conduziria à mesmice ou às grades, éramos chamados de maravilhosos por uma boca sorridente.

Às vezes ganhávamos dinheiro, também. Não muito. Eram centavos, em verdade, mas era dinheiro. O velho nos dava algum dinheiro, enquanto subia a mesma rua que dominávamos como animais na selva. Dava dinheiro a nós, e esse dinheiro certamente faltava lá em cima, poucas acasas adiante da minha, pois sua esposa um dia indignou-se com os meninos. Quem eram esses que pediam e recebiam dinheiro do velho escritor ?

À noite, seus olhos eram vermelhos e úmidos. Eram como um lenço de uma viúva recente. Seu hálito era puro álcool. Seus passos eram mansos, mas passaram também depois a serem tortos.

Hoje penso que, se nós, meninos, sentiamo-nos muito espertos por receber balas e algum dinheiro, sutilmente o velho também arrancava algo de nós em troca. Talvez uma jovialidade e ansiedade de viver dos meninos, já naquela época fadada a morrer. Ele sabia disso.

Arrancava talvez alguma inspiração para algum conto. Se sim, ele estava certo. Tudo vale por um vômito de palavras a serem embrulhadas num papel.

A brutalidade real tocou-me quando encontrei seu livro, de poucas páginas e modesto, na estante ao lado de meu quarto. Uma data antiga e escrita à caneta lembrava o ano de 1986, e o "Tango Argentino" escrito pelo velho escritor, mostrava-se ali, na minha mão, como um item sagrado e mágico capaz de despertar reminiscências abandonadas na história.

No livro, há contos que não li.

Lembrei-me do desejo de imortalidade oculto que esconde a sete chaves um escritor. Vinte anos depois, o velho voltou a viver, subiu novamente a ladeira, seu hálito reacendeu-se.

Não havia mais meninos gritando e implorando por doces ou por trocados e a rua estava vazia, lamentando a ausência de vidas que se perderam na maturidade.

O livro na minha mão.

E o velho, naquele instante, imortal.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sentiu um ímpeto violento afogar-lhe a garganta enquanto a língua seca e áspera se agitava no interior de sua boca, tal como uma cobra que serpea sua presa marcada para a morte.
Com as mãos agitadas e nervosas, tentava por meio de um pesado balançar, rememorar os versos que só anos depois lhe fariam sentido. Grudados na árida boca, as palavras recusavam-se terminantemente a serem cuspidas: ".... Transtornado, tornado louco pelo desespero. Não o consintas, meu amor, meu bem, digamos até logo agora....".
Um sorriso irônico permeado de tristeza. Repetiu a si mesmo:
"Não o consintas.....digamos até logo agora...", ordens inexoráveis para o início de passos duros e punhos cerrados, ao que se seguiram pequenos goles de ar que preenchiam o vazio dos pulmões ávidos por um louco estado arfante.
Ele simplesmente não podia mais se conter. Pensamentos incessantes massacravam sua cabeça, deixando rastros de culpa e orgulho:"Eu não era assim tão terrivelmente violento a ponto de desejar que cada corpo desses que passa por mim, seja alvo de pancadas, chutes e socos. Já fui sereno.... cantarolava por estas mesmas ruas. Já sorri sinceramente para todos estes seres desprezíveis que hoje me provocam náuseas...".
Com os olhos semi-cerrados e a tensão esculpida no rosto, incontáveis vincos afundavam e percorreriam toda sua face, esparramando-se como córregos fétidos que cortam bairros podres.
Andando pelas ruas, ainda se notava nele resquícios de um sujeito elegante. Ainda que a barra de sua calça folgada raspasse o chão, deixando o tecido carcomido pelos selvagens dentes do asfalto, e mesmo que sua camisa aberta e deformada por uma barriga que, proeminente, lançava-se adiante de seus passos, mulheres e pederastas olhavam-o a todo tempo.
Uma caça constante por troca de olhares que pudesse significar um resquício de humanidade naquele soldado selvagem. Soldado que batia violentamente seus pés calçados com sapatos esbranquiçados, no solo banhado de sangue invisível da tresloucada São Paulo.
No entanto, nenhum olhar o detinha. Pederastas sentiam que a violência e os pensamentos sanguinários que exalavam de seu corpo, poderiam ser melhor aproveitados em sessões de sexo marcado por couro e fetiches sombrios. As mulheres não enxergavam nesse corpo, outrora musculoso, e nessa face, outrora pacífica, nada além de um homem cuja alma poderia ser remediada com golpes de amor e de carinho, única forma de livrá-lo das maldições sentimentais, de amores corrompidos e de dores inexpugnadas.
Ainda assim. Olhavam. Desejavam. Corrompiam.
Ele mesmo nada fazia. Apenas uma volta pelo centro da cidade, em suas tortuosas vias. Uma infinidade de sangue, dor, sofrimento e consternação eram a matéria-prima de seus pensamentos e de seus desejos, insuportavelmente viscerais.
Sorriu de novo. Melancolia. A sequência dos versos rememorados foi despejada em sua cabeça sem qualquer prévio aviso: "...mas a mim nenhum som me importa afora o som do teu nome que eu adoro. E não me lançarei no abismo, e não beberei veneno, e não poderei apertar na têmpora o gatilho...".
Respirou fundo. Mais do que pequenos goles, um furacão de ar lhe preencheu os pulmões, com seu pensamento remoendo o plano: não se prolongariam, diriam até logo e diriam isso agora.
Odiariam-se, decerto. Culpariam-se mutuamente por tudo e por nada. Mas não beberia veneno e não estouraria seus miolos.
Desejou desfazer-se de seus pensamentos sanguinários, mas a postura de permanente combate infligia verdadeiro monopólio em seu coração.
Não foi por outra razão que ao avistar aquele esquálido sujeito apoiado em sua motocicleta, de peito aberto e um já insípido chiclete mascado na boca, desejou com ardor enfiar-lhe um soco nas costelas, de modo que este único impacto o faria dobrar-se em joelhos e mendigar clemência.
"Maldito !", diria com veemência a este sujeito dobrado no chão, mártir de todas as infelicidades que suportara. "Alguém deve pagar ! Pouco me importa quem !", sua boca balbuciava tais palavras enquanto afastava-se cada vez mais do sujeito e de sua motocicleta, que sorria tranquilamente enquanto observava os estranhos passantes.
Na esquina seguinte, novo tormento. Uma não sei qual sensação de punição se apoderou do rapaz quando uma bela prostituta nele lançou olhares de interesse. Ele tinha notas no bolso, notas essas que lhe conferiam segurança em si mesmo. "Se quiser um trago de algo qualquer, basta-me arrancar apenas uma dessas notas. Não dependo de ninguém." Com o sexo, poderia se pensar o mesmo. Se quisesse, um simples raspar de dedos no pequeno bolo de notas que recheava seu bolso, seria capaz de lhe colocar à disposição essa ou qualquer outra bela mulher.
Treparia violentamente. Não diria uma só palavra durante o coito. Contrairia todos seus músculos e ficaria brilhante de suor. Uma estátua de suor. Era como gostava de se imaginar. Apenas poucas notas que precisaria tirar de seu bolso, e pronto, lá estaria ela, nua, sedutora, voz suave, corpo delineado na mais artificial luz de um quarto horrendo.
Viria o gozo abrupto e selvagem. Urraria como lobo perdido de sua matilha. Após a estafa, e após o incrível vazio que sempre se apoderava de sua alma segundos após se desfalecer no seio de qualquer uma, estaria pronto para pagar pelo minuto de prazer.
Logo em seguida, o óbvio: teria um desprezo absoluto pela mulher. Frágil e vão. O desprezo pelo outro jamais o impediu de sentir igual desprezo por si mesmo.
Mas enquanto a prostituta o observava, decidiu nada fazer. Hoje ele não tiraria nota alguma de seu bolso. Hoje ele amaria poder arrastar essa ou qualquer outra que lhe cruzasse o caminho. Arrastaria pelos cabelos sem dó. Jogaria-a no chão e cuspiria em sua cara. "Você me dá nojo. Eu tenho nojo de amor a preço certo.", seria a frase ideal para terminar sua cena.
Mas apenas passou por ela e nada disse, mais uma vez.
Sentia uma raiva como há muito não tinha a chance de experimentar. Não havia episódio concreto a provocar tamanha fúria neste singelo dia de sangue não derramado, de agressões não consumadas, de coito violento e bestial não efetivado. Ele apenas via as pessoas nas ruas e elas lhe provocavam o mais profundo desgosto.
Precisou ir embora para não dar vazão a seu eu que clamava por expressão. Precisava controlar-se, ainda que renunciando a si mesmo.
No caminho de volta para sua maldita casa - ela nada era além de depósito de um autêntico lixo humano - pôs-se a completar, aos brados vigorosos e ensandecidos em meio a plena rua, a poesia que há muito havia lhe encantado:
"...Amanhã esquecerás que eu te pus num pedestal,

que incendiei de amor uma alma livre,

e os dias vãos - rodopiante carnaval -

dispersarão as folhas dos meus livros...

Acaso as folhas secas destes versos

far-te-ão parar,

respiração opressa ?"